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domingo, 9 de setembro de 2018

Tempo de se expressar


Atividades humanas são expressões que demonstram o modo de ser e agir no mundo. Atividades expressivas em terapia ocupacional, como pintura, desenho, modelagem, artes em geral com as mãos, produção de textos, leituras, jogos, uma imensidão de afazeres, permitem trazer conteúdos do inconsciente, apropriar-se ou dar-se conta de si mesmo, fazendo algo. O modo de agir diante da atividade possibilita despertar e descobrir outros interesses e habilidades e ter consciência daquilo que tinha e não sabia. Esta forma de intervenção em terapia ocupacional envolve conceitos da psicodinâmica da ação
A compreensão além das palavras possibilita ao terapeuta ocupacional observar a ação realizada pelo sujeito em vários contextos, família, trabalho, social. A compreensão pelo fazer, individualmente ou em grupos, no processo terapêutico, revela dados concretos da pessoa que estavam escondidos ou mesmo impercebíveis, obscuros, que a pessoa pode “dar-se conta”.   
As formas como as pessoas se comportam e agem diante de situações concretas da vida cotidiana permitem ao terapeuta ocupacional, trazer, ofertar informações que auxiliem a compreender determinada situação e produzir mudanças que melhorem sua forma de se conduzir no mundo.
O tempo todo fazemos “coisas” e  reagimos de forma automática. O automatismo de nossas ações é uma condição necessária para a sobrevivência. Entendemos por reações automáticas aquelas que desenvolvemos sem tomar consciência.
Para entender melhor o quero dizer, vejamos a partir de uma compreensão do movimento, diante de uma ação muscular; já reparou quantas ações realiza sem perceber? Por exemplo, piscar, respirar, você realiza sem perceber, sem o seu comando, sem o seu controle, são ações involuntárias. Normalmente as ações involuntárias são desenvolvidas como uma forma de proteção e subsistência. Ao falar não observamos o movimento da nossa língua, a única coisa que fazemos conscientemente é pensar em algo que vamos dizer.
Realizar um movimento com um objetivo determinado requer do sistema nervoso central, informações sensoriais para assegurar que a função motora se realize. Assim sem as informações sensoriais os movimentos podem ser imprecisos e tarefas que requerem coordenação minuciosa das mãos como abotoar uma camisa e fechar um zíper ficam impossibilitadas. Normalmente as reações automáticas apresentam-se como reflexos e hábitos adquiridos, abotoamos uma camisa e fechamos um zíper sem percebe, isto é saudável e nos ajuda a ganhar tempo para outros afazeres.  Neste contexto é mais fácil perceber as ações da terapia ocupacional.
Existe dentro da terapia ocupacional uma larga bibliografia e ações práticas sobre os benefícios da teoria da integração sensorial.   Fiz uso desse conceito como uma forma de exemplificar e conduzir o leitor a compreensão de como o terapeuta ocupacional pode obter informações sobre as pessoas e fazer com que as mesmas também possam observar as sensações provocadas pelas atividades que são desenvolvidas em seu cotidiano.
Por outro lado fazer da vida um hábito com ações rotineiras e repetitivas pode conduzir ao automatismo e apresentar comportamentos  que prejudicam a qualidade de vida. A repetição incessante pode gerar um vazio uma falta de significado, tudo parece um fardo, sem sentido. E na verdade os sentidos estão de fatos adormecidos. Por esse motivo vários terapeutas ocupacionais se dedicam a observar, investigar, analisar e propor mudanças na rotina da vida diária, não apenas para restabelecer funções perdidas á nível da reabilitação física, mas provocar mudanças estruturais, na ordem dos sentidos e das emoções.   Ao realizar atividades na presença de um terapeuta ocupacional, através da observação e análise da pessoa realizando e produzindo ações,  neste processo, oferece  pistas, possibilita a reflexão, tomar consciência de atos, sensações, sentimentos não percebidos que podem auxilia-lo  a obter maior satisfação em sua rotina diária. Pessoas que compreendem melhor suas ações estabelecem novas formas de satisfação, encontram saídas, descobrem oportunidades empoderam-se.
Um tempo para a realização de atividades diferentes pode proporcionar o acesso a pontos importantes do cérebro, oferecendo estímulo e o despertar de novas ações. Pratique essa ideia.

sábado, 11 de novembro de 2017

Tempo da Impotência

A existência humana se constitui com processos recorrentes de ações que determinam sucessos e derrotas em todos os aspectos da vida, assim como geram potencia e impotência para administrar o próprio tempo.
No cotidiano com pequenas tarefas de rotina presenciamos momentos de potencia e impotência. Momentos do dia a dia que poderiam ser simples, às vezes se tornam complexos. A culinária, por exemplo, é motivo para sérias frustrações, quando algo deu errado, queimou, salgou, passou do ponto. A sensação de impotência e frustração se acentua, principalmente quando outras pessoas dependem do alimento que você prepara.
Situações rotineiras e habituais em determinados tempos da vida, produzem sentimentos e sensações que alteram o emocional. Portanto, penso que o cotidiano, os hábitos, a rotina, influenciam constantemente nosso estado emocional. Os motivos que conduzem nosso vigor, entusiasmo, potencia, são estabelecidos no dia a dia e somam-se tanto para os sucessos como para o insucesso.
Grande parte das atividades que realizamos no cotidiano, origina o automatismo, dificultando a percepção das falhas no processo de realização, mas também das reais potencias do que cada um executa. Olhar para aquilo que se faz e como se faz, nos conduz a percepção, de como agimos e nos permitem diferenciar e identificar, limitações, potencialidades e assim alcançar a noção de quem eu sou na direção da construção de nossa singularidade.
Os tempos atuais, a con-tempo-raneidade, permitiu e redefiniu uma nova forma de compreender o mundo, com suas imagens em todas as direções, trouxe o mundo e a informação de forma rápida e ao alcance de todos. Entretanto,  todos os avanços contribuíram também para nos distanciar de nós mesmos,  nos afastam da singularidade e nos conduzem a idealização do poder com exacerbação do individualismo e não para a formação da identidade. O que faço, o que produzo só tem sentido para me confirmar e reafirmar perante o outro. A síndrome do pânico pode advir dessa condição de alta exigência, de poder e desempenho fruto dos tempos atuais. O mal estar surge no corpo, na ação, é paralisante por não atingir o esperado, é o sentimento da insuficiência.  
O mundo atual por permitir plenas possibilidades, incitado a um fazer exteriorizado, em contexto que é proibido proibir e envergonha-se por não alcançar, produz um sujeito que não se vê e nem se encontra sem o outro,        
No tempo da impotência a ação está prejudicada, somos seres estagnados, sem direção e sem confiança na vida. A sociedade contribui para a produção de seres sem sentido e ação, não desejantes, com falta de capacidade reflexiva. A sociedade do espetáculo produz atores e não autores de processos de transformação pessoal e coletiva.  O sentimento de capacidade e potencia é o diferencial que gera satisfação e conduz o ser humano a fazer escolhas e produzir ações.
No tempo da impotência as sensações de impedimentos e limitações restringem atos que nos conduzam a desenvolver nossas reais possibilidades, existe a contenção e a falta de iniciativa. Estou vestido de vários trajes, atuando em diversos cenários, uma encenação que não alimenta que se esvazia e só produz mais impotência. Nestes tempos não é o corpo que solicita, mas a alma que clama.    


                                                                                                     


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Tempo de música

De repente algumas músicas invadem a mente, e foi assim que me vi cantando Dublê de corpo do compositor e cantor Leoni. 

   
Ouvir música é uma atividade que ativa lembrança, principalmente se a canção foi vivenciada dentro de um contexto emocional. Estudos indicam que a capacidade de memorização está ligada com um significado emocional de maior peso, é por isso que ouvir músicas com interações sociais agradáveis estimulam o cérebro e promovem emoções. A emoção também é um recurso para estimular funções cerebrais.
A audição desempenha uma importante função na nossa vida e corresponde a um dos órgãos dos nossos sentidos. A medida que  envelhecemos, ou mesmo por traumas físicos, genéticos, dentre outros, podemos perder ou diminuir a capacidade auditiva. No primeiro momento o que se pensa é na limitação, entretanto, se bem usada, a barreira inicial poderá ser uma oportunidade para usar outros sentidos.
O inesperado pode ser um fator positivo à medida que modifica algo habitual, rotineiro, porque um cérebro ativo e saudável se consegue com reações imprevisíveis, e o que pode ser mais inesperado do que as interações sociais?
Ouvir música já é uma atividade prazerosa, mas imagina associar essa atividade em um grupo de pessoas, com jogos de lembrar qual é a música, contar uma história que determinada música ocasionou. O cérebro tem que fazer várias associações e assim sai do automático com um estímulo novo e inusitado.  
Experimente colocar tampões no ouvido e faça suas atividades habituais, perceba o mundo sem som, com certeza terá que utilizar outros recursos diferentes do que está acostumado, esse processo retira seu cérebro do automático e permite novas associações.
Associe a música a um cheiro, aprecie um filme sem a visão, comunique-se sem usar a voz.
Aproveite o tempo da música para ouvir diferente seu cérebro agradece.




quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Tempo do nada.

Eu não quero saber de mais nada. Quantas vezes você já disse ou ouviu essa frase? Será um sintoma ou a manifestação de um vazio, da falta de ilusão, de planos feitos e não realizados?
A frase tudo passa também é habitual quando vivenciamos algum problema. Parece existir um estágio na vida que realmente tudo passa ou será que permanece encoberto, se oculta?
No sentido de que tudo passa, a vida fica como uma passagem de momentos e situações vivenciadas que se atravessa de um trabalho á outro de um relacionamento a outro e temos a sensação não de um abalo, mas de um caminho que precisamos vivenciar no sentido da transposição, ou seja, tem “coisas” a frente a serem exploradas. Existe uma força presente e ativa que impulsiona e apresenta a necessidade de avançar.
Há outros tempos que se mostram como barreiras, ponto final, nada mais a ser descoberto e explorado.
Recentemente da leitura de um livro, uma frase me chamou a atenção e foi algo que nunca havia pensado antes, a frase dizia: tem um momento na vida que todos encontram seu obstáculo final. Esta afirmativa será uma verdade?
Tempos difíceis exigem paciência, tolerância, esperança e até certa conformidade e aceitação.  
A perda das ilusões, a visão do mundo real nos coloca na posição de encontrar novas verdades um novo desafio talvez. Tempo do nada pode ser entendido como o tempo da tristeza do descrédito de todas as crenças, a falta de sentido e perspectivas nas pessoas e nas ações, tempo que se caminha e não sai do lugar.
O tempo do nada pode ser também um momento de “luto” o que não é doença, mas a manifestação de perdas sejam elas físicas sociais e ou emocionais. Ninguém gosta de perder um braço, amputar uma perna, perder um ente querido, um emprego, um ideal, passagens inevitáveis e precisamos de estímulos significativos para nos reconstituir novamente. Faço esta reflexão no tempo do estímulo.
Buscar e ou desvelar seu novo ser interior será um grande desafio. No tempo vulcânico faço essa reflexão, como o tempo do conflito, da coragem para enfrentar as agitações, para enxergar quem sou o que estou fazendo por aqui, refere-se a há um lugar desconhecido, oculto, mas sem dúvida de natureza existencial. As particularidades do seu ser, aquilo que você tem dificuldade para aceitar e ou enxergar, más sabe que existe, está relacionado com sua essência com aquilo que te faz sentido e te dá às respostas para a tua existência.
Retomando a frase que despertou esta reflexão, deposito aqui a citação, não como uma certeza, mas fica aqui a questão: “todos nós passaremos um obstáculo final” ?
        


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Tempo do vai e volta


Tempo do vai e volta

Sempre dizemos não viva do passado ele já se foi, mas será que você nunca retomou algo, um projeto, uma situação, uma tarefa do seu passado? Às vezes acontecimentos do passado são entendidos como lições de vida. Passado é considerado um tempo que se foi, passou, mas que precisamos dele para nos contextualizar no presente, constituir nossa história. Também são comuns afirmativas quanto a repetições do passado, do tipo: não vá cometer o mesmo erro. E aí me veio a seguinte questão: seria um erro retomar ou rever algo do passado? Se algo ou alguma situação retorna seria uma repetição, ou esta lembrança ou situação de vida, retorna a você para um novo aprendizado ou uma nova oportunidade de fazer bem feito e melhor? 
Em meio a todas essas questões, recentemente me defrontei com uma situação prática e cotidiana que descreverei a seguir.
Há alguns anos atrás caminhando por onde morava encontrei jogada uma mesa que estava em bom estado, considerei bom estado o fato de ter sua estrutura preservada, os pés, faltando apenas à parte superior, o tampo. Naquele momento não tive dúvida trouxe pra casa e reformei ficou ótima. Recentemente outra mesa apareceu por aqui meio estragada e por coincidência, também na parte superior. Enquanto trabalhava nessa reforma alguns pensamentos foram chegando. Pensei: por que novamente me aparece uma mesa com características semelhantes? Então corri pra cá, comecei a escrever, refletir e apresentar alguns questionamentos que se desenrolaram. Outros pensamentos foram aparecendo na medida em que realizava a reforma.  Algumas coisas vêm e vão, e se apareceram novamente, seria uma repetição característica dos neuróticos descritos por Freud? Ou seria algo do carma que pregam algumas religiões? O tempo produz modificações em nós, não apenas físicas, eu diria que na maioria das vezes, destruidora, mas também por outro lado reconfortantes, amadurecemos, fazemos conexões que jamais faríamos em tempos passados.         
Dessa situação da mesa não consegui um resoluto final, mas compreendi que hoje sou diferente de tempos atrás e, portanto o tampo será diferente e mesmo os objetos que quero colocar á mesa. Assim, entendo que não existe repetição, embora o objeto seja o mesmo. Naquele momento contei com a ajuda do meu pai, ele é muito bom pra qualquer tipo de reforma, conhece, tem experiência, mas tem dificuldade para pensar diferente do que sempre pensou. Perceber que materiais se modificam há avanços e modernizações. Eu diria também que rigidez, é uma condição devastadora quando se pretende transformar alguma coisa. Hoje ainda não consegui terminar a mesa, parece que me falta entusiasmo, ou mesmo não sei ainda o que colocar de tampo.
Neste simples fazer me reportei ao passado, penso agora que tipo de tampo posso utilizar e ainda faço projeções futuras do que colocar sobre ela e em que lugar esta mesa poderá se acomodar. 

Neste processo de fazer, que produz reflexões e mudanças, descobrimos coisas novas sobre nós mesmos, um novo autoconhecimento que se ajustam as perdas do que éramos, fazemos uma nova adaptação e acomodação, um novo conceito de nós mesmos.
Este é um dos mecanismos utilizados para o acompanhamento da terapia ocupacional com foco na saúde mental. O terapeuta ocupacional ajuda as pessoas que por um processo de doença e ou situação de vida perderam suas capacidades funcionais ou mesmo o conceito de si próprio.
A saúde tanto física quanto mental é um atributo de todos que convivem na sociedade, seja na família no trabalho e os terapeutas ocupacionais que atuam com intervenção para a saúde mental, independentemente do diagnóstico, devem promover sensação de bem-estar, elaborar metas para atingir objetivos, pensar e agir dentro da realidade atual e contexto social das pessoas.

Finalizando e concluindo o passado nos ajuda a construir um novo presente, mas os não acertos no passado, não nos dão garantia de novos erros atuais. O importante é a transformação interna, um novo olhar diante de um mesmo objeto e situação de vida, entendendo que são parecidos, mas nunca exatamente iguais.

domingo, 7 de agosto de 2016

Tempo da falta de tempo.



O que conduz as pessoas sentirem-se prisioneiras do seu tempo? Imagina uma prisão, a delimitação de um espaço físico e como se pode atribuir ao tempo essa condição? Considerando que somos seres autônomos, podemos dirigir nossa vida da maneira que bem entendemos, ou não? O que está por trás deste fenômeno mundial da falta de tempo? Existem várias formas de explicação ou entendimento para esta situação; farei uma reflexão sob o ponto de vista de uma terapeuta ocupacional que se preocupa e dirige seus conhecimentos para entender as ações das pessoas e o uso que fazem do seu tempo.
Em minha dissertação intitulada, Inclusão: lazer e participação social sob o olhar de pessoas com deficiência mental e suas famílias, conduzi meus estudos não para a falta de tempo, mas como o tempo livre é despendido para pessoas excluídas socialmente. Atualmente usa-se a expressão pessoas com deficiência intelectual, houve mudança na nomenclatura científica para este termo, porque de fato dizer deficiência mental implica uma conotação generalizada e hoje se entende que pode haver um déficit intelectual o que não implica possuir outras habilidades. Nesta pesquisa destaquei a importância de atividades de lazer na vida dessas pessoas. Naquele momento minha pesquisa se direcionou para as pessoas com deficiência, mas a questão do lazer, por exemplo, é algo pouco desfrutado na vida das pessoas que relatam sobre a falta de tempo. Passado alguns anos após esta pesquisa, observo que para as pessoas com algum tipo deficiência, sobra tempo e uma das preocupações familiares é de como preencher esse tempo vazio. A ausência de um trabalho seria um dos motivos para o tempo desocupado? Normalmente o discurso é: trabalho o dia todo, estudo, não sobra tempo para essas coisas, no caso lazer, divertimento e muito menos atividade física. As justificativas são muitas, cada um pode dar um motivo, Um dos motivos frequentes inclui à falta de condições financeiras, como se o divertimento só tivesse a analogia por coisas ou situações suntuosas. Tanto para o trabalho quanto para o lazer é necessário que essas atividades tenham sentido, significado, satisfação um senso de prazer e realização. O trabalho geralmente está na condição de um ganho financeiro e muitas vezes as pessoas escolhem profissões com vistas ou na expectativa, de sucesso relacionado a dinheiro. É lógico que todos nós precisamos de dinheiro para viver, mas fazer disso a razão de vida com certeza produzirá insatisfação.
Se for analisar friamente, hoje o divertimento de jovens é passar horas e horas em jogos virtuais, no computador no celular. Geralmente o tipo de jogo é progredir etapas, superar, avançar níveis, pra alcançarem tais passagens, precisam matar vencer e capturar. O propósito de tal divertimento não está na ação do presente, no momento, está lá na frente, no vencer uma competição. E o que isso teria a ver com a falta de tempo? No mundo do divertimento virtual, existe um hiperfoco, uma concentração demasiada em apenas uma atividade, o que acarreta a falta de interesse por outras. Portanto, visto por esse ângulo, não existe falta de tempo, existe falta de interesse por acontecimentos novos. Um ”fazer” novo implica repensar ações, despertar interesses, estimular a vontade, sair da automação, se permitir criar, utilizar a espontaneidade, exercitar a capacidade e a liberdade de escolha. A sociedade parece caminhar cada vez mais para a realização de atividades automáticas e pelo acúmulo de tarefas.
Como já disse no tempo embolado, o acúmulo constante de tarefas às vezes esconde algo e também há uma desorganização geral de como distribuir e ou priorizar tarefas ao longo do dia.
Sob um ponto de vista filosófico, será que a falta de tempo é uma forma de não sentir falta alguma? Perceber que algo falta ou mesmo sentir uma perturbação pode gerar um incomodo do qual não quero resolver ou não vejo saída. E assim não é raro o relato da falta de tempo associado à exaustão, há um desgaste e falta de energia, porque há um esforço para encobrir e não perceber os fatos, muito menos qualquer tipo de sensação.  
No ritmo acelerado que vivemos temos dificuldade para perceber sensações, tanto de prazer quanto de desprazer, as pequenas coisas da vida não são apreciadas e ações mais simples se tornam cada dia menos valorizadas. Isto não significa voltar à idade da pedra, mas prestar atenção que o excesso de trabalho, estudo e uso de tecnologias nos aprisionam no tempo.
Enquanto estamos aprisionados várias coisas acontecem ao nosso redor, na família, na política, na vida como um todo e assim corremos o risco, pela falta de tempo, de não exercer nossa função autônoma. Deste modo o exercício da autonomia pode ser um propulsor para sermos de fato senhores e donos do nosso próprio tempo.



domingo, 19 de junho de 2016

Tempo do bem

O que significa bem? Segundo o dicionário a definição de bem é aquilo que é bom, agradável, que causa alegria e felicidade. Ao assistir um filme me vi navegando em pensamentos e reflexões por este sentimento do bem, da capacidade ou não de humanidade, do perdão e da simplicidade, do sentir diferente. Observo e vivencio diversas situações com meus pacientes, nesta experiência procuro através da minha formação acadêmica e dos anos vividos, auxiliar nas possibilidades das interações pessoais, nas atividades cotidianas, despertar e ou desenvolver uma habilidade que conduzam a inclusão social e a qualidade de vida, produzir saúde.
A inclusão social é algo bonito de se dizer, mas quão longe está da realidade em que vivemos. Praticar a inclusão requer aceitação, quebra de rótulos e preconceitos, e porque não dizer um sentido de humanidade. A sociedade carece de mudanças na estrutura física e na forma de concepção das pessoas diferentes. O senso comum indica a terapia ocupacional às pessoas consideradas diferentes, mas já parou pra pensar o quanto está difícil incluir-se de uma maneira geral, conseguir seu espaço e até mesmo uma aceitação de si mesmo? A condição de ser bom, praticar a benevolência relaciona-se com as características da natureza humana e não diz respeito apenas as pessoas incomuns, porque na verdade somos todos diferentes. Não entendo o bem e o bom como ser bobo e nem com a condição de herói, como utilizada por filmes, mas como algo inerente a natureza e próprios da capacidade de amar. Tenho a impressão que o mundo caminha cada vez mais na direção da falta de altruísmo.
Tempo do bem deveria ser todo dia: ” fazer o bem não importa a quem”. Para ações do bem é necessário um pouco de inocência ou mesmo não ter intenção da maldade, agir de acordo com a simplicidade e concretude do sentimento. Levar ao pé da letra aquilo que ouvimos e sentimos, sem racionalizar pode dar a impressão de besteira, mas é a forma mais pura de expressão. A manifestação simples dos sentimentos, a demonstração sem receio, não se importando com o que o outro pode pensar, não é algo característico na convivência social.
O filme “my name is khan”, fala desta simplicidade na manifestação de ações humanitárias, a discriminação e o preconceito em relação a uma pessoa com a síndrome de asperger. Curioso é que este filme não teve divulgação, talvez por ser um filme indiano e induzir várias questões aos Estados Unidos, como a perseguição aos muçulmanos, o preconceito, ausência ou atraso humanitário em virtude do estrago causado pelo furacão Katrina que atingiu Louisiana.
A Síndrome de Asperger é brilhantemente interpretada pelo personagem    denominado Khan, que demostra a falta de jeito na expressão do afeto e ou a falta da habilidade para sentir como as pessoas “normais”. A aparência desajeitada de se comportar, a interpretação muito literal da linguagem e a interação social ingênua e inapropriada, aparece de forma encantadora e extremamente sincera no personagem. O jeito espontâneo de se comportar surpreende as pessoas tanto para o bem quanto para o mal e produz laços afetivos que conduzem a sua realização na vida e aos ensinamentos primários vindos da mãe, sobre pessoas boas e más.
O filme me emocionou ao demonstrar que nada é impossível quando se tem obstinação, se existe crença, mesmo que aos olhos dos outros possa ser fantasioso e fora da realidade.
A dificuldade na expressão de afeto, característica da síndrome, não se constitui um obstáculo para que o amor e a dor possam ser percebidos de outras formas, diferentes das quais normalmente conhecemos. 
A perspectiva do sentir/fazer diferente conduz ao exercício de despertar novos conhecimentos e emoções, como por exemplo, pensar e despender parte do seu tempo para refletir sobre ações que promovam o bem.