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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Tempo de Máscaras.

 


Tem gente que anda mascarado o ano todo, máscara para que?

“Quanto mais o homem fala de si, mais deixa de ser ele mesmo. Dê-lhe uma máscara e ele dirá a verdade.” (Oscar Wilde)

Não é neste cenário das frases acima, com implicações de interpretação subjetiva, que  desenvolverei esse texto, vamos conversar daqui para frente sobre um equipamento essencial que agora poderá nos ajudar a nos proteger e proteger os demais: as mascaras.

Equipamentos de segurança compõem a vida de muitas pessoas que trabalham; como soldadores, pintores, trabalhadores rurais com o uso de agrotóxicos ou qualquer tipo de ação em que nossa vida corre  riscos, se estimularmos nossas lembranças encontraremos outros instrumentos de proteção,  além do equipamentos de proteção utilizados por profissionais da saúde.

Na perspectiva de que a vida consiste de passagens inesperadas, como no compasso das horas tudo pode mudar, novos hábitos, novas rotinas e comportamentos atravessaram a vida de todas as pessoas do mundo.

Novos hábitos, novas rotinas vieram sem consentimento e sem permissão, provocaram mudanças, para algumas positivas para outras desagradáveis, entretanto mudanças geralmente colocam a vida da gente em xeque e faz com que possamos parar e pensar sobre como estamos conduzindo ou sendo conduzidos na forma de viver.

Novas formas de viver implicaram em novos hábitos, ou mesmo a retomada de alguns que foram esquecidos e ou negligenciados, como o lavar as mãos frequentemente e o deixar os sapatos do lado de fora ao entrar em casa.

O hábito é incorporado em nossa vida e se constitui como um fenômeno biofisicopsicologico que permite uma vez aprendido algo, a conservação de uma sensação de que essa ação pode-se repetir indefinidamente sem modificação, nos habituamos por adaptação, clima, necessidade ou obrigatoriedade.

Através do habito obtemos uma visão da nossa realidade, essas ações as vezes até automáticas,  estabelecem mudanças e volta-se a repetição e no acostumar-se as novas disposições, são atos aprendidos, mantidos e adquiridos pelo tempo e segundo necessidades individuais, embora eu possa ter um habito de escovar os dentes, por exemplo, esse hábito se configura com  experiências particulares vivenciadas no cotidiano.

Embora pareça ser tudo a mesma coisa, a ciência indica a distinção entre habito, rotina e cotidiano.  Habito seria uma ação que se repete todo dia, tomar banho, escovar os dentes, a rotina compõe o conjunto de hábitos que apresentam certa previsibilidade em um dia, já o cotidiano engloba a dimensão existencial humana constituída por rotinas e hábitos.

Parece um tanto confuso e complexo, mas para o entendimento das ações das pessoas é necessário essa segmentação.

É do interesse e estudo da Terapia Ocupacional o que as pessoas fazem (como, porque, para que) em que proporção as rotinas estão comprometidas, como usam seu tempo e dirigem seus interesses, porque a análise detalhadas dessas ações auxiliam a melhoria da qualidade de vida a nível do desempenho e das emoções.    

Apesar de todas as transformações ocorridas nas rotinas de cada pessoa, o  uso de mascaras, por exemplo,  passou a ser incluído como um acessório fundamental , mas com várias resistências, apresentou-se como um habito de difícil adaptação.

 Vários são os incômodos relatados pelas pessoas  no uso da mascara. Se pensar do ponto de vista das sensações, dois órgãos dos sentidos são tapados durante o uso da mascara, nariz e boca. Eles são responsáveis respectivamente pelo olfato e paladar. Através deles, sentimos cheiros agradáveis que nos levam a sensações agradáveis, mas também a sensações desagradáveis, no caso mau cheiro. Pelo paladar sentimos os prazeres de uma boa degustação, assim tapando nariz e boca, sentimos mais nosso próprio cheiro e gosto.

Outras sensações desagradáveis se apresentam como: o embasamento dos óculos o ter que falar mais alto, o não entendimento do que foi dito. Parece que tudo se torna um motivo para não usar. Entretanto tudo é uma questão de hábito, do acostumar-se, quem não sentiu sensações desagradáveis com o uso e obrigatoriedade do cinto de segurança?  Com o tempo, pouco a pouco conseguimos incorporar o uso de cinto de segurança e sabemos o quanto essa ação evitou várias mortes em acidentes de transito. Toda mudança que provoca um novo hábito e rotina leva tempo para a adaptação e neste processo somos meios que obrigados a exercitar e desenvolver a paciência e a tolerância, com nós mesmos, com os outros e com a situação atual.

Portanto siga as orientações, seja responsável: Faça certo, use correto, use mascaras.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Tempo de ficar em casa, parte 2.


Terapeutas Ocupacionais utilizam com frequência a palavra transformação, nas nossas intervenções dizemos como é importante a mudança, o aprendizado o habilitar, e neste caso, as pessoas por nós assistidas, terão a condição ou não de se conscientizar, refletir,  agir e escolher para assim atuar e transformar seu contexto de vida. 
Vivenciamos hoje no mundo  a falta ou ausência de certa autonomia, nosso cotidiano se restringiu a casa, fomos obrigados a permanecer isolados por um bem maior, a mudança agora é forçada, precisamos e devemos ficar em casa.
Diante deste novo cenário (o de ficar em casa) como aproveitar a situação a nosso favor?
Os que conseguiram fazer o exercício proposto na parte 1 de ficar em casa, encontraram divergências, contradições, alguns chegaram à conclusão que o tempo antes da pandemia não era lá muito bom, outros descobriram que não é tão ruim ficar em casa, outros sentiram falta de algo que faziam no mundo externo e outros ainda viram-se forçados a fazer atividades que nunca fizeram antes, as análises e conclusões poderão ser imensas dependendo das características individuais de cada um.
Após um momento tão delicado como esse, o medo, a ansiedade, a insegurança e até mesmo o pânico poderão ocupar nossa mente como uma avalanche e dependendo das nossas ações ficaremos soterrados, caso não façamos algo. Por isso tente, experimente, invente não fique parado.  
Visto pelo lado positivo e saudável toda essa explosão de situações que estão fora do nosso controle, podemos na condição de ficar em casa recuperar, organizar, entender, planejar  o tempo e as ocupações e  dar um outro sentido e significado as próprias ações.
Na tentativa de ajudar segue abaixo algumas recomendações.

Dicas no processo de realização das atividades:
1.    Concentre-se na atividade com atenção plena no que faz.
2.    Faça uma tarefa por vez.
3.    Respeite o seu tempo, tolerância e ritmo diante da atividade.
4.    Programe seu dia em atividades que poderá desenvolver.
5.    Experimente uma atividade que nunca fez.


segunda-feira, 23 de março de 2020

Tempo de ficar em casa, parte 1.



A vida é o inesperado o imprevisível, por mais que tentamos controlar, acabamos sempre sem esse controle e assim ficamos como agora, mas com uma vantagem, podemos controlar nosso próprio tempo, estando em casa.
Em texto anterior escrevi sobre a falta de tempo, a queixa de muitas pessoas, e agora com esse confinamento como estarão as pessoas; com tédio, sem saber o que fazer, nervosas, em pânico,só assistindo coisas ruins ou fixadas nas redes de internet e celulares?
Tudo na vida pode ter um proposito e se souber olhar de forma ampliada poderá obter benefícios nessa nova condição de isolamento social.   A restrição do espaço, dentro de casa, pode ser um facilitador no entendimento de como utilizo o tempo. No meu texto sobre a falta de tempo faço alguns questionamentos, sobre o excesso de concentração em determinadas atividades, por exemplo, no mundo do divertimento virtual um hiperfoco, o que acarreta a falta de interesse por outras. Portanto, visto por esse ângulo, não existe falta de tempo, existe falta de interesse por acontecimentos novos. Um ”fazer” novo implica repensar ações, despertar interesses, estimular a vontade, sair da automação, se permitir, criar, utilizar a espontaneidade, criatividade, exercitar a capacidade e a liberdade de escolha. Dentro de casa podemos agora escolher o que fazer e sair da realização de atividades automáticas e acúmulo de tarefas.
Convido você leitor a fazer um pequeno exercício ao longo destes dias de isolamento: pegue um papel, bloco de notas, rascunho, lápis ou caneta e começaremos a pensar em como estava meu tempo antes do coronavírus, seu grau de satisfação de como administrava seu tempo, no trabalho, no lar, na vida social, você colocará uma pontuação de 1 a 5, mas lembre-se é preciso escrever, assim estimulará melhor sua consciência e isso não se perderá, poderá fazer ao longo dos dias, não de uma vez só, porque cada apontamento te conduzirá a outro.  Após esse exercício fará a mesma coisa escrevendo como está seu tempo hoje no confinamento da casa, organiza seu tempo, tem atividades programadas para o dia, faz um monte de coisas ao mesmo tempo? Ao final poderá comparar o que escreveu do seu tempo antes do coronavírus e agora, percebera se foram grandes as mudanças, isto possibilitará olhar para algo que não tinha percebido. 
Experimente fazer o exercício, tente, é uma forma de autoconhecimento. Para quem não gosta de escrever, coloque em formas de tópicos, e para quem gosta aproveite o momento.
Existe espaço para comentários, caso queiram fazer.
Pretendo escrever outros textos sobre tempo de ficar em casa com reflexões e atividades na utilização do tempo.
Aproveite o tempo, agora está em suas mãos. 


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

tempofaz.blogspot.com: Tempo de igualdades ou desigualdades.

tempofaz.blogspot.com: Tempo de igualdades ou desigualdades.: O filme ganhador do Oscar, Parasita, suscitou em mim algumas inquietações e assim   através desse relato faço   uma pequena Infiltração   ...

Tempo de igualdades ou desigualdades.


O filme ganhador do Oscar, Parasita, suscitou em mim algumas inquietações e assim  através desse relato faço  uma pequena Infiltração  na família dos Kim retratada pela fita, sob o olhar da Terapia Ocupacional.
Um contexto familiar permeia várias problemáticas, pode ser o adoecimento de algum membro, que modifica toda a rotina e funções de cada integrante, mas  também pode ser um problema emergente e atual, como a perda de um emprego e a dificuldade de retornar ao mundo do trabalho.
Inicio a analise com a contraposição nas palavras infiltrar e parasitar; infiltração não significa parasitar, posso exercer a infiltração sem ocupar uma posição parasitária.
 No filme um jovem pertencente a família dos Kim, se infiltra em outra família, Park , oferecendo aula  de inglês. Ao se infiltrar na função de professor de inglês exerceu sua habilidade  de ensinar pelo domínio que tinha pelo idioma.
Esse personagem se destaca por demonstrar uma habilidade reconhecida por seu amigo, porém o que se vê na dinâmica familiar dos Kim é a falta de funções cotidianas, o celular se apresenta como objeto central, com a função de estabelecer a conexão com a vida, com o mundo de fora e o trabalho aparece como recurso apenas de subsistência, não encontram significado, são meros executores do fazer em série, produzindo embalagens para pizza.   
Com o passar do tempo o foco do jovem, que ministra aulas, começa a se desviar para a necessidade de empregar toda a sua família, faz planos com mentiras e trapaças dos membros que já ocupavam a residência para serem demitidos de suas funções.  Assim um a um, as pessoas que habitavam o cotidiano, daquela família com funções de  motorista, governanta e um terapeuta, foram sendo demitidos sucessivamente.
A realidade explicitada no filme retrata a sociedade, muitas vezes cruel  que vivemos, relações de trabalho superficiais, de “passar a perna no outro”, “ puxar o tapete” para alcançar um cargo de maior poder financeiro e status, enfim relações que presenciamos cotidianamente nos processos de trabalho e mostram preferencialmente as convivências  pouco saudáveis e conflituosas  de poder e desvalia  sobre o outro.
Outra realidade da sociedade capitalista é a prioridade sobre os bens de consumo e a pouca ou nenhuma percepção do “ser”. As pessoas se concentram em obter, bens materiais, produtos superfulos para ocupar um lugar no mundo, e se constituir enquanto pessoa, ou seja, sou o que possuo o que aparento.  Esta forma de pertencimento na verdade produz pessoas que desconhecem a si mesmos, não tem um autoconceito, imitam e ocupam papéis em que não se reconhecem.
E claro que não vou deixar de lado a problemática das injustiças sociais, todo mundo deveria ter a condição de morar bem, com conforto, podendo usufruir dos bens de consumo ofertados, porém o que se observa na família Kim e em muitas famílias brasileiras é a falta de ideais próprios, mantém e ocupam uma posição de servidão do sistema ou atribuindo seus fracassos a outros.
Querer viver à custa de outros por pura exploração ou preguiça ou querer se igualar ou ter o que o outro tem porque assim funciona a sociedade, contribui para o adoecimento dos trabalhadores, causam, por exemplo, pessoas ansiosas e “vazias”. Por outro lado em meio a tantas desigualdades sociais fica cada vez mais difícil ter a opção de escolha de um trabalho. Entretanto não podemos nos contaminar e apenas aceitar as dificuldades de forma passiva ou como revolta é necessário refletir essa falta de escolha, de oportunidades e encontrar no pragmatismo formas de criar e recriar o mundo do trabalho e as relações que os constituem. O autoconceito se faz e se produz com aquilo que fazemos, portanto é importante gostar do que se faz e se não gostar buscar outras habilidades e formas de superação.
O trabalho ocupa grande parte do nosso tempo, se não nos reconhecemos nele se não tem significado é apenas fruto na obtenção de dinheiro, produz e cria seres insatisfeitos que desconhecem suas habilidades e potencialidades, porque o olhar está apenas no depois em ganhar o salário para obter algo material.
Deveríamos exercer trabalhos onde pudéssemos estimular nossas habilidades, criatividades que apresentasse algo da nossa historia, um trabalho que nos representasse como pessoas.
Seria essa uma visão romântica ou utópica de enxergar a vida? Penso que não, fui formada para acreditar na transformação das pessoas e encontrar estratégias para auxiliar enfrentamentos e superações diante das adversidades da vida.
Em cada cenário de adversidades, os terapeutas ocupacionais ampliaram suas práticas para outros níveis de atenção, como nas situações e processos de trabalho através de ações de vigilância, atendimentos individuais e/ou em grupos de reflexão com trabalhadores portadores de doenças ligadas ao trabalho, adaptações a novas funções, ergonomia e na busca de alternativas para os que perderam o emprego.  Pelo estudo, análise e uso de atividades terapeutas ocupacionais compreendem a complexidade e a singularidade das pessoas em sua relação com o mundo do trabalho. A terapia ocupacional não faz você ocupar seu tempo, mas ajuda a encontrar o “lugar” que ocupa no mundo.
O modelo clinico da T.O. no campo da saúde mental e trabalho entende a pessoa de forma abrangente, nos diversos contextos de vida em que habita. O trabalho pode ser constitutivo da pessoa e da sua identidade e conta com uma complexidade de ações e relações, portanto necessita de um olhar diferenciado, que implica transformações de situações de trabalho.
Pense bem o lugar que você ocupa porque o trabalho exerce influencia em todos os âmbitos do viver e apontar para a construção de um novo modelo de intervenção na prevenção e voltado para o confronto entre mundo externo e mundo interno pode auxiliar na organização social e psíquica das pessoas determinando qualidade de vida.


domingo, 25 de agosto de 2019

Tempo da Responsabilidade.


 É UMA FALTA DE RESPONSABILIDADE ESPERARMOS QUE ALGUÉM FAÇA AS COISAS POR NÓS – JOHN LENNON
Para aqueles que conseguem dar uma olhada no que escrevo, já perceberam que gosto ou procuro investigar o sentido das palavras, entender o significado e a função que exercem na nossa vida.
Os temas aparecem na minha cabeça á partir de algumas situações que vivencio, na vida profissional, social, em família, algo que me faz refletir e “piensar en mussarañas “ como se diz em espanhol, meu idioma favorito.
A responsabilidade seria algo que se tem, foi construído, pode ser um estado passageiro,  depende das situações vivenciadas?? O que é a responsabilidade?
O conceito de responsabilidade segundo o dicionário refere-se à capacidade, compromisso de cumprir com um dever ou uma obrigação. Vou defender a responsabilidade como uma ação apreendida ao longo do desenvolvimento e também adquirida a medida que exercitada e praticada frequentemente. 
Adultos podem se tornar responsáveis com o nascimento de um filho. Muitos pais procuram colocar algumas funções para suas crianças e isso é necessário; arrumar os brinquedos depois que brincou fazer a lição da escola, ajudar em alguma tarefa domestica, comprar algo, cuidar, entre outros e respeitando a idade, o amadurecimento e experiência de cada criança. As famílias que estabelecem uma  dinâmica ativa com algumas dessas ações em seus lares está mais propensa a estimular e desenvolver na criança a responsabilidade.
Na adolescência não é diferente e as responsabilidades tendem a aumentar, com o início do namoro, por exemplo, é esperado e deve existir o compromisso com o próprio corpo o estudo, papéis sociais, identificação de gênero que confundem e perturbam a cabeça dos adolescentes e dos pais. Em meio a tantos conflitos é comum escutar dos pais que os adolescentes não arrumam o quarto, só ficam no celular e os pais se queixam com razão, porque para os adolescentes é mais fácil se preocuparem com coisas que estão longe deles. Aproximar, trazer para perto acontecimentos do cotidiano, implica no compromisso com algo que é real e que dependente deles. Ter o compromisso com algo real e a seu alcance é poder acertar e errar e pode se concretizar como um bom exercício para o amadurecimento.  Quando se pratica a responsabilidade o bem comum se sobressai sobre o individual, ser  responsável também implica em ser alguém confiável. Ao assumir compromisso com algo ou alguém, lutamos, nossa energia tem foco e objetivo. Portanto assumir responsabilidade é trazer pra você, se comprometer, não está fora, está em você a ação.
Hoje em dia a responsabilidade, quando existe é “frouxa”, se exercita uma meia responsabilidade. A verdade é que todo mundo foge das obrigações e por que será? 
 Existem pessoas que não querem ser promovidas a lugares de chefia porque, dizem, «ter mais responsabilidades». Daí Agostinho da Silva dizer que de certa maneira um capitão é mais livre do que um general. O capitão ao executar as ordens do general está livre das consequências dos seus atos, já que apenas cumpriu ordens. Assim, a responsabilidade já não é sua e sim do outro. Será que o capitão é mais livre do que o general? A responsabilidade antes de ser social, é individual. Ela implica sempre uma escolha, mesmo que esta seja inconsciente. Neste ponto pode-se dizer que o general tem autonomia, porque exerce sua vontade, tem confiança e capacidade de escolha. Só o sujeito que é capaz de escolher e decidir livremente poderá ser capaz de assumir as causas e as consequências da sua ação, pois se não agir com liberdade, dificilmente irá assumir os seus atos e fugirá à responsabilidade.
Em meu artigo “A importância de atividades de lazer na terapia ocupacional” http://www.cadernosdeterapiaocupacional.ufscar.br/index.php/cadernos/article/view/429/317 faço reflexões sobre escolhas e o quanto esta habilidade pode estar comprometida nas pessoas excluídas socialmente. Quando as pessoas estão, momento passageiro, ou são estado permanente de alguma limitação, física, mental, social,  o ato de opinar, escolher e gerenciar a própria vida é orientado por outros que as consideram incapazes para tais atos. Ao serem consideradas “incapazes” são impedidas de fazer escolhas, o que indica certo grau de limitação em sua liberdade e na condução de sua própria biografia.
Neste percurso de pensamento parece que responsabilidade tem muito da condição de ser autônomo. E você o que pensa sobre responsabilidade??
Quem se compromete a salvar a Amazônia e quem se responsabiliza pelo desmatamento, o capitão ou o general??   


domingo, 28 de abril de 2019

Tempo de Independência.


O que é independência? O que é ser dependente de algo ou alguém? Você gosta de depender? Gosta que alguém dependa de você?
Algumas dessas perguntas podem ser respondidas rapidamente, outras precisaremos parar e pensar, porque ser ou estar independente dependerá de cada pessoa, da fase e dos diversos contextos em que está inserida.
A palavra independência é um termo forte e está presente em diversos aspectos da nossa vida, tanto para situações em que dependemos de algo, ou nas relações que estabelecemos dependendo de alguém.
“Independência ou morte” disse Dom Pedro I, foi o grito proclamado para a independência do Brasil, nota-se uma expressão forte e demonstra o significado que pode apresentar dependendo da situação em que é utilizada e da forma como pode ser aplicada nos diversos contextos de vida.
O termo conceitual de independência é citado por dicionários da língua portuguesa, como a capacidade da pessoa que não necessita de ajuda de alguém para desenvolver suas atividades.
Ao longo do nosso desenvolvimento podemos ou não ser afrontados com algum tipo de “barreira”, um obstáculo, um impedimento, na maioria das vezes aparece como um desafio, ficar a prova de, no exercício de nossa independência.   
No referencial do modelo de reabilitação, independência significa ter capacidade física e cognitiva sem auxilio de outros. A independência se constitui como uma das competências sociais que necessitamos para desempenhar nossas atividades cotidianas. As atividades cotidianas e/ou ocupações são aquelas realizadas ao longo do dia (escovar dentes, comer), não apenas restritas a estas, mas também as atividades que envolvem o meio social, como escola, trabalho, família, festas, etc.
Desenvolver, estimular a independência, é um termo muito utilizado por Terapeutas Ocupacionais e profissionais que visam à reabilitação, porque pensamos em pessoas com algum tipo de limitação física, e um dos objetivos para o tratamento é a independência para atividades do dia a dia; escovar o cabelo, fazer a barba, vestir-se, parece simples mais é muito trabalhoso para quem faz e perdeu uma função.
Porém restabelecer a função de uma parte do corpo não é o único objetivo de um processo de reabilitação, às vezes esse objetivo principal dá espaço, ou surge outro, que direciona para outras situações de vida que precisam ser transformadas, o terapeuta precisa estar atento ao contexto geral da vida daquela pessoa e entender o ser humano de forma integral.
Acredito que o ensino e a formação de Terapeutas Ocupacionais adotam os princípios da compreensão do ser humano como um todo e talvez isso explique a abrangência das nossas intervenções.  
No raciocínio clínico de Terapeutas Ocupacionais, construímos formas de pensar e refletir a independência diante de vários aspectos da vida da pessoa. Às vezes o progresso para restabelecer a função de um membro e ou adaptação para uma nova condição nas rotinas diárias, está diretamente relacionado às representações e experiências de vida, no significado diante da função perdida e os papéis ocupacionais exercidos por determinada pessoa.   
A deficiência ou limitação em algum órgão, por exemplo, na visão, pode trazer algum grau de dependência do outro, mas existem vários recursos disponíveis para que a pessoa nessa condição seja mais independente possível. Refletindo sob o ponto de vista de não existir nenhuma limitação, enxergo tudo, mas frequentemente preciso dos olhos dos outros, quando me visto, quando limpo a casa, quando faço uma pintura, existe também nessa condição uma dependência do outro. Tomemos outro exemplo como o papel da mulher em nossa sociedade, desde cedo somos estimuladas a “brincar de casinha”, ter filhos, lavar panelinhas, casar, entre tantos outros. Neste raciocínio podemos entender porque muitas mulheres na fase adulta dependem da família, do marido e se sujeitam a ser dependentes, porque na maioria das vezes não encontram outro papel, função na vida, não se sentem capazes e empoderadas. O assunto sobre independência é imenso, mas o objetivo aqui é apenas provocar uma reflexão, no sentido de como a Terapia Ocupacional pode ajudar a fortalecer a mulher com ações práticas: descobrindo habilidades e interesses, “fazendo coisas” que auxiliem a conquistar maior independência.
Quero salientar com essas situações opostas que a presença de uma limitação física não é maior ou mais grave, quando o assunto e ser independente. Qual seria a pior dependência?
Por outro lado entende-se também que nunca seremos totalmente independentes, que a independência está relacionada com as diversas fases de vida e que talvez para aqueles que odeiam serem dependentes e sofrem com essa condição, uma das possibilidades seria construir formas adequadas e mais satisfatórias para a dependência, poderia dizer acomodações, adaptações evitando ou diminuindo sofrimentos.  
A independência nos conduz a uma abrangência de significados, singularidades e diversas compreensões diante dos vários contextos de vida para cada pessoa. A dependência faz parte da vida,  porém terá diferentes influências, segundo a intensidade, frequência, quanto perdura, como e quando acontece.
E para você a independência é algo sério?        
Minha sugestão para complementar o que provoquei até aqui, é o relato de Fabiana Bonilha:   http://correio.rac.com.br/mobile/materia_historico.php?id=428210l  E vejam o vídeo abaixo:

domingo, 7 de outubro de 2018

Tempo de escolhas

Entendo uma diferença entre escolher e decisão. A escolha vem antes da decisão. Segundo o dicionário online da língua portuguesa, escolha significa selecionar entre duas ou mais opções a sua preferencia, bom gosto, predileção entre duas ou mais coisas que se demonstra em relação a algo ou alguém.
Parece uma tarefa fácil, mas de fato não é, mesmo quando limitamos as quantidades de objetos, pessoas e situações. Quantas vezes você se sentiu perdido diante de tantas escolhas? Por exemplo, entrar em uma loja de bijuterias e se deparar com tantas possibilidades. Se você não colocar ou elencar algumas diretrizes para sua escolha, com certeza saíra bem perdido e sem conseguir escolher algo. E assim mesmo direcionando o que você quer, e fazendo sua escolha acaba chegando em casa e se perguntando se fez a escolha certa, ou com a cabeça naquilo que você  deixou para trás.
Gosto de partir de exemplos práticos e do cotidiano que vivenciamos a todo o momento. Outro dia me vi escolhendo uma coleira para cachorros: uma opção para a escolha foi o preço; outra a cor e outra a praticidade e durabilidade do material. Sai da loja feliz, um pouco em dúvida confesso, com o material que havia comprado. Enfim, após tantas dúvidas, resolvi abrir o pacote e começar a usar a coleira. Após alguns dias de usos percebi que a coleira começou a abrir na lateral da costura e pensei  que talvez a outra que havia deixado fosse melhor. 
Nesses pensamentos de melhor escolha e na minha atitude de levar a coleira para a casa, existia a fantasia da escolha perfeita.  Escolha perfeita significa não ter erros, ou qualquer tipo de prejuízo naquilo que entendi como o melhor para o momento.
Quantas frustrações nos acometem na escolha de um sapato, de uma roupa, de uma profissão, namorado, entre tantos outros. Entendemos e queremos acreditar que foi a melhor escolha, entretanto nem sempre as escolhas que fazemos nos garantem que estaremos satisfeitos. Nem sempre a roupa, o sapato, ou qualquer outra escolha que  fizermos serão garantia de nossas satisfações.  As frustações são maiores à medida que colocamos expectativas diante daquilo que escolhemos e não avaliamos as imperfeições do caminho.
Diante dessa imprevisibilidade de situações, a partir de escolhas, algumas pessoas não querem correr riscos e delegam a outras á sua escolha, assim encontram uma forma de não se responsabilizar e não se frustrarem.
Entendo que de uma forma ou de outra, quer você queira ou não o tempo todo na vida cotidiana fazemos algum tipo de escolha e nem sempre acertaremos, porque o acertar depende do quanto você consegue ser flexível diante das modificações que a vida lhe impõe, o quanto se consegue transformar á partir das imperfeições.
Portanto, hoje, saímos de casa para votar, com a escolha em nossas cabeças e exercemos uma atitude, porém não saberemos se nossas escolhas foram as melhores, porque não existem acertos nessa vida, mas temos a garantia que a vida caminha porque fazemos escolhas. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Tempo de mudança ( cambiar siempre)



Vivir situaciones inesperadas puede ser un buen ejercicio práctico para producir cambios y así  encontrar nuevos significados en la vida.  Me gustó este ejemplo.

domingo, 9 de setembro de 2018

Tempo de se expressar


Atividades humanas são expressões que demonstram o modo de ser e agir no mundo. Atividades expressivas em terapia ocupacional, como pintura, desenho, modelagem, artes em geral com as mãos, produção de textos, leituras, jogos, uma imensidão de afazeres, permitem trazer conteúdos do inconsciente, apropriar-se ou dar-se conta de si mesmo, fazendo algo. O modo de agir diante da atividade possibilita despertar e descobrir outros interesses e habilidades e ter consciência daquilo que tinha e não sabia. Esta forma de intervenção em terapia ocupacional envolve conceitos da psicodinâmica da ação
A compreensão além das palavras possibilita ao terapeuta ocupacional observar a ação realizada pelo sujeito em vários contextos, família, trabalho, social. A compreensão pelo fazer, individualmente ou em grupos, no processo terapêutico, revela dados concretos da pessoa que estavam escondidos ou mesmo impercebíveis, obscuros, que a pessoa pode “dar-se conta”.   
As formas como as pessoas se comportam e agem diante de situações concretas da vida cotidiana permitem ao terapeuta ocupacional, trazer, ofertar informações que auxiliem a compreender determinada situação e produzir mudanças que melhorem sua forma de se conduzir no mundo.
O tempo todo fazemos “coisas” e  reagimos de forma automática. O automatismo de nossas ações é uma condição necessária para a sobrevivência. Entendemos por reações automáticas aquelas que desenvolvemos sem tomar consciência.
Para entender melhor o quero dizer, vejamos a partir de uma compreensão do movimento, diante de uma ação muscular; já reparou quantas ações realiza sem perceber? Por exemplo, piscar, respirar, você realiza sem perceber, sem o seu comando, sem o seu controle, são ações involuntárias. Normalmente as ações involuntárias são desenvolvidas como uma forma de proteção e subsistência. Ao falar não observamos o movimento da nossa língua, a única coisa que fazemos conscientemente é pensar em algo que vamos dizer.
Realizar um movimento com um objetivo determinado requer do sistema nervoso central, informações sensoriais para assegurar que a função motora se realize. Assim sem as informações sensoriais os movimentos podem ser imprecisos e tarefas que requerem coordenação minuciosa das mãos como abotoar uma camisa e fechar um zíper ficam impossibilitadas. Normalmente as reações automáticas apresentam-se como reflexos e hábitos adquiridos, abotoamos uma camisa e fechamos um zíper sem percebe, isto é saudável e nos ajuda a ganhar tempo para outros afazeres.  Neste contexto é mais fácil perceber as ações da terapia ocupacional.
Existe dentro da terapia ocupacional uma larga bibliografia e ações práticas sobre os benefícios da teoria da integração sensorial.   Fiz uso desse conceito como uma forma de exemplificar e conduzir o leitor a compreensão de como o terapeuta ocupacional pode obter informações sobre as pessoas e fazer com que as mesmas também possam observar as sensações provocadas pelas atividades que são desenvolvidas em seu cotidiano.
Por outro lado fazer da vida um hábito com ações rotineiras e repetitivas pode conduzir ao automatismo e apresentar comportamentos  que prejudicam a qualidade de vida. A repetição incessante pode gerar um vazio uma falta de significado, tudo parece um fardo, sem sentido. E na verdade os sentidos estão de fatos adormecidos. Por esse motivo vários terapeutas ocupacionais se dedicam a observar, investigar, analisar e propor mudanças na rotina da vida diária, não apenas para restabelecer funções perdidas á nível da reabilitação física, mas provocar mudanças estruturais, na ordem dos sentidos e das emoções.   Ao realizar atividades na presença de um terapeuta ocupacional, através da observação e análise da pessoa realizando e produzindo ações,  neste processo, oferece  pistas, possibilita a reflexão, tomar consciência de atos, sensações, sentimentos não percebidos que podem auxilia-lo  a obter maior satisfação em sua rotina diária. Pessoas que compreendem melhor suas ações estabelecem novas formas de satisfação, encontram saídas, descobrem oportunidades empoderam-se.
Um tempo para a realização de atividades diferentes pode proporcionar o acesso a pontos importantes do cérebro, oferecendo estímulo e o despertar de novas ações. Pratique essa ideia.

sábado, 11 de novembro de 2017

Tempo da Impotência

A existência humana se constitui com processos recorrentes de ações que determinam sucessos e derrotas em todos os aspectos da vida, assim como geram potencia e impotência para administrar o próprio tempo.
No cotidiano com pequenas tarefas de rotina presenciamos momentos de potencia e impotência. Momentos do dia a dia que poderiam ser simples, às vezes se tornam complexos. A culinária, por exemplo, é motivo para sérias frustrações, quando algo deu errado, queimou, salgou, passou do ponto. A sensação de impotência e frustração se acentua, principalmente quando outras pessoas dependem do alimento que você prepara.
Situações rotineiras e habituais em determinados tempos da vida, produzem sentimentos e sensações que alteram o emocional. Portanto, penso que o cotidiano, os hábitos, a rotina, influenciam constantemente nosso estado emocional. Os motivos que conduzem nosso vigor, entusiasmo, potencia, são estabelecidos no dia a dia e somam-se tanto para os sucessos como para o insucesso.
Grande parte das atividades que realizamos no cotidiano, origina o automatismo, dificultando a percepção das falhas no processo de realização, mas também das reais potencias do que cada um executa. Olhar para aquilo que se faz e como se faz, nos conduz a percepção, de como agimos e nos permitem diferenciar e identificar, limitações, potencialidades e assim alcançar a noção de quem eu sou na direção da construção de nossa singularidade.
Os tempos atuais, a con-tempo-raneidade, permitiu e redefiniu uma nova forma de compreender o mundo, com suas imagens em todas as direções, trouxe o mundo e a informação de forma rápida e ao alcance de todos. Entretanto,  todos os avanços contribuíram também para nos distanciar de nós mesmos,  nos afastam da singularidade e nos conduzem a idealização do poder com exacerbação do individualismo e não para a formação da identidade. O que faço, o que produzo só tem sentido para me confirmar e reafirmar perante o outro. A síndrome do pânico pode advir dessa condição de alta exigência, de poder e desempenho fruto dos tempos atuais. O mal estar surge no corpo, na ação, é paralisante por não atingir o esperado, é o sentimento da insuficiência.  
O mundo atual por permitir plenas possibilidades, incitado a um fazer exteriorizado, em contexto que é proibido proibir e envergonha-se por não alcançar, produz um sujeito que não se vê e nem se encontra sem o outro,        
No tempo da impotência a ação está prejudicada, somos seres estagnados, sem direção e sem confiança na vida. A sociedade contribui para a produção de seres sem sentido e ação, não desejantes, com falta de capacidade reflexiva. A sociedade do espetáculo produz atores e não autores de processos de transformação pessoal e coletiva.  O sentimento de capacidade e potencia é o diferencial que gera satisfação e conduz o ser humano a fazer escolhas e produzir ações.
No tempo da impotência as sensações de impedimentos e limitações restringem atos que nos conduzam a desenvolver nossas reais possibilidades, existe a contenção e a falta de iniciativa. Estou vestido de vários trajes, atuando em diversos cenários, uma encenação que não alimenta que se esvazia e só produz mais impotência. Nestes tempos não é o corpo que solicita, mas a alma que clama.    


                                                                                                     


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Tempo de música

De repente algumas músicas invadem a mente, e foi assim que me vi cantando Dublê de corpo do compositor e cantor Leoni. 

   
Ouvir música é uma atividade que ativa lembrança, principalmente se a canção foi vivenciada dentro de um contexto emocional. Estudos indicam que a capacidade de memorização está ligada com um significado emocional de maior peso, é por isso que ouvir músicas com interações sociais agradáveis estimulam o cérebro e promovem emoções. A emoção também é um recurso para estimular funções cerebrais.
A audição desempenha uma importante função na nossa vida e corresponde a um dos órgãos dos nossos sentidos. A medida que  envelhecemos, ou mesmo por traumas físicos, genéticos, dentre outros, podemos perder ou diminuir a capacidade auditiva. No primeiro momento o que se pensa é na limitação, entretanto, se bem usada, a barreira inicial poderá ser uma oportunidade para usar outros sentidos.
O inesperado pode ser um fator positivo à medida que modifica algo habitual, rotineiro, porque um cérebro ativo e saudável se consegue com reações imprevisíveis, e o que pode ser mais inesperado do que as interações sociais?
Ouvir música já é uma atividade prazerosa, mas imagina associar essa atividade em um grupo de pessoas, com jogos de lembrar qual é a música, contar uma história que determinada música ocasionou. O cérebro tem que fazer várias associações e assim sai do automático com um estímulo novo e inusitado.  
Experimente colocar tampões no ouvido e faça suas atividades habituais, perceba o mundo sem som, com certeza terá que utilizar outros recursos diferentes do que está acostumado, esse processo retira seu cérebro do automático e permite novas associações.
Associe a música a um cheiro, aprecie um filme sem a visão, comunique-se sem usar a voz.
Aproveite o tempo da música para ouvir diferente seu cérebro agradece.




quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Tempo do nada.

Eu não quero saber de mais nada. Quantas vezes você já disse ou ouviu essa frase? Será um sintoma ou a manifestação de um vazio, da falta de ilusão, de planos feitos e não realizados?
A frase tudo passa também é habitual quando vivenciamos algum problema. Parece existir um estágio na vida que realmente tudo passa ou será que permanece encoberto, se oculta?
No sentido de que tudo passa, a vida fica como uma passagem de momentos e situações vivenciadas que se atravessa de um trabalho á outro de um relacionamento a outro e temos a sensação não de um abalo, mas de um caminho que precisamos vivenciar no sentido da transposição, ou seja, tem “coisas” a frente a serem exploradas. Existe uma força presente e ativa que impulsiona e apresenta a necessidade de avançar.
Há outros tempos que se mostram como barreiras, ponto final, nada mais a ser descoberto e explorado.
Recentemente da leitura de um livro, uma frase me chamou a atenção e foi algo que nunca havia pensado antes, a frase dizia: tem um momento na vida que todos encontram seu obstáculo final. Esta afirmativa será uma verdade?
Tempos difíceis exigem paciência, tolerância, esperança e até certa conformidade e aceitação.  
A perda das ilusões, a visão do mundo real nos coloca na posição de encontrar novas verdades um novo desafio talvez. Tempo do nada pode ser entendido como o tempo da tristeza do descrédito de todas as crenças, a falta de sentido e perspectivas nas pessoas e nas ações, tempo que se caminha e não sai do lugar.
O tempo do nada pode ser também um momento de “luto” o que não é doença, mas a manifestação de perdas sejam elas físicas sociais e ou emocionais. Ninguém gosta de perder um braço, amputar uma perna, perder um ente querido, um emprego, um ideal, passagens inevitáveis e precisamos de estímulos significativos para nos reconstituir novamente. Faço esta reflexão no tempo do estímulo.
Buscar e ou desvelar seu novo ser interior será um grande desafio. No tempo vulcânico faço essa reflexão, como o tempo do conflito, da coragem para enfrentar as agitações, para enxergar quem sou o que estou fazendo por aqui, refere-se a há um lugar desconhecido, oculto, mas sem dúvida de natureza existencial. As particularidades do seu ser, aquilo que você tem dificuldade para aceitar e ou enxergar, más sabe que existe, está relacionado com sua essência com aquilo que te faz sentido e te dá às respostas para a tua existência.
Retomando a frase que despertou esta reflexão, deposito aqui a citação, não como uma certeza, mas fica aqui a questão: “todos nós passaremos um obstáculo final” ?
        


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Tempo do vai e volta


Tempo do vai e volta

Sempre dizemos não viva do passado ele já se foi, mas será que você nunca retomou algo, um projeto, uma situação, uma tarefa do seu passado? Às vezes acontecimentos do passado são entendidos como lições de vida. Passado é considerado um tempo que se foi, passou, mas que precisamos dele para nos contextualizar no presente, constituir nossa história. Também são comuns afirmativas quanto a repetições do passado, do tipo: não vá cometer o mesmo erro. E aí me veio a seguinte questão: seria um erro retomar ou rever algo do passado? Se algo ou alguma situação retorna seria uma repetição, ou esta lembrança ou situação de vida, retorna a você para um novo aprendizado ou uma nova oportunidade de fazer bem feito e melhor? 
Em meio a todas essas questões, recentemente me defrontei com uma situação prática e cotidiana que descreverei a seguir.
Há alguns anos atrás caminhando por onde morava encontrei jogada uma mesa que estava em bom estado, considerei bom estado o fato de ter sua estrutura preservada, os pés, faltando apenas à parte superior, o tampo. Naquele momento não tive dúvida trouxe pra casa e reformei ficou ótima. Recentemente outra mesa apareceu por aqui meio estragada e por coincidência, também na parte superior. Enquanto trabalhava nessa reforma alguns pensamentos foram chegando. Pensei: por que novamente me aparece uma mesa com características semelhantes? Então corri pra cá, comecei a escrever, refletir e apresentar alguns questionamentos que se desenrolaram. Outros pensamentos foram aparecendo na medida em que realizava a reforma.  Algumas coisas vêm e vão, e se apareceram novamente, seria uma repetição característica dos neuróticos descritos por Freud? Ou seria algo do carma que pregam algumas religiões? O tempo produz modificações em nós, não apenas físicas, eu diria que na maioria das vezes, destruidora, mas também por outro lado reconfortantes, amadurecemos, fazemos conexões que jamais faríamos em tempos passados.         
Dessa situação da mesa não consegui um resoluto final, mas compreendi que hoje sou diferente de tempos atrás e, portanto o tampo será diferente e mesmo os objetos que quero colocar á mesa. Assim, entendo que não existe repetição, embora o objeto seja o mesmo. Naquele momento contei com a ajuda do meu pai, ele é muito bom pra qualquer tipo de reforma, conhece, tem experiência, mas tem dificuldade para pensar diferente do que sempre pensou. Perceber que materiais se modificam há avanços e modernizações. Eu diria também que rigidez, é uma condição devastadora quando se pretende transformar alguma coisa. Hoje ainda não consegui terminar a mesa, parece que me falta entusiasmo, ou mesmo não sei ainda o que colocar de tampo.
Neste simples fazer me reportei ao passado, penso agora que tipo de tampo posso utilizar e ainda faço projeções futuras do que colocar sobre ela e em que lugar esta mesa poderá se acomodar. 

Neste processo de fazer, que produz reflexões e mudanças, descobrimos coisas novas sobre nós mesmos, um novo autoconhecimento que se ajustam as perdas do que éramos, fazemos uma nova adaptação e acomodação, um novo conceito de nós mesmos.
Este é um dos mecanismos utilizados para o acompanhamento da terapia ocupacional com foco na saúde mental. O terapeuta ocupacional ajuda as pessoas que por um processo de doença e ou situação de vida perderam suas capacidades funcionais ou mesmo o conceito de si próprio.
A saúde tanto física quanto mental é um atributo de todos que convivem na sociedade, seja na família no trabalho e os terapeutas ocupacionais que atuam com intervenção para a saúde mental, independentemente do diagnóstico, devem promover sensação de bem-estar, elaborar metas para atingir objetivos, pensar e agir dentro da realidade atual e contexto social das pessoas.

Finalizando e concluindo o passado nos ajuda a construir um novo presente, mas os não acertos no passado, não nos dão garantia de novos erros atuais. O importante é a transformação interna, um novo olhar diante de um mesmo objeto e situação de vida, entendendo que são parecidos, mas nunca exatamente iguais.

domingo, 7 de agosto de 2016

Tempo da falta de tempo.



O que conduz as pessoas sentirem-se prisioneiras do seu tempo? Imagina uma prisão, a delimitação de um espaço físico e como se pode atribuir ao tempo essa condição? Considerando que somos seres autônomos, podemos dirigir nossa vida da maneira que bem entendemos, ou não? O que está por trás deste fenômeno mundial da falta de tempo? Existem várias formas de explicação ou entendimento para esta situação; farei uma reflexão sob o ponto de vista de uma terapeuta ocupacional que se preocupa e dirige seus conhecimentos para entender as ações das pessoas e o uso que fazem do seu tempo.
Em minha dissertação intitulada, Inclusão: lazer e participação social sob o olhar de pessoas com deficiência mental e suas famílias, conduzi meus estudos não para a falta de tempo, mas como o tempo livre é despendido para pessoas excluídas socialmente. Atualmente usa-se a expressão pessoas com deficiência intelectual, houve mudança na nomenclatura científica para este termo, porque de fato dizer deficiência mental implica uma conotação generalizada e hoje se entende que pode haver um déficit intelectual o que não implica possuir outras habilidades. Nesta pesquisa destaquei a importância de atividades de lazer na vida dessas pessoas. Naquele momento minha pesquisa se direcionou para as pessoas com deficiência, mas a questão do lazer, por exemplo, é algo pouco desfrutado na vida das pessoas que relatam sobre a falta de tempo. Passado alguns anos após esta pesquisa, observo que para as pessoas com algum tipo deficiência, sobra tempo e uma das preocupações familiares é de como preencher esse tempo vazio. A ausência de um trabalho seria um dos motivos para o tempo desocupado? Normalmente o discurso é: trabalho o dia todo, estudo, não sobra tempo para essas coisas, no caso lazer, divertimento e muito menos atividade física. As justificativas são muitas, cada um pode dar um motivo, Um dos motivos frequentes inclui à falta de condições financeiras, como se o divertimento só tivesse a analogia por coisas ou situações suntuosas. Tanto para o trabalho quanto para o lazer é necessário que essas atividades tenham sentido, significado, satisfação um senso de prazer e realização. O trabalho geralmente está na condição de um ganho financeiro e muitas vezes as pessoas escolhem profissões com vistas ou na expectativa, de sucesso relacionado a dinheiro. É lógico que todos nós precisamos de dinheiro para viver, mas fazer disso a razão de vida com certeza produzirá insatisfação.
Se for analisar friamente, hoje o divertimento de jovens é passar horas e horas em jogos virtuais, no computador no celular. Geralmente o tipo de jogo é progredir etapas, superar, avançar níveis, pra alcançarem tais passagens, precisam matar vencer e capturar. O propósito de tal divertimento não está na ação do presente, no momento, está lá na frente, no vencer uma competição. E o que isso teria a ver com a falta de tempo? No mundo do divertimento virtual, existe um hiperfoco, uma concentração demasiada em apenas uma atividade, o que acarreta a falta de interesse por outras. Portanto, visto por esse ângulo, não existe falta de tempo, existe falta de interesse por acontecimentos novos. Um ”fazer” novo implica repensar ações, despertar interesses, estimular a vontade, sair da automação, se permitir criar, utilizar a espontaneidade, exercitar a capacidade e a liberdade de escolha. A sociedade parece caminhar cada vez mais para a realização de atividades automáticas e pelo acúmulo de tarefas.
Como já disse no tempo embolado, o acúmulo constante de tarefas às vezes esconde algo e também há uma desorganização geral de como distribuir e ou priorizar tarefas ao longo do dia.
Sob um ponto de vista filosófico, será que a falta de tempo é uma forma de não sentir falta alguma? Perceber que algo falta ou mesmo sentir uma perturbação pode gerar um incomodo do qual não quero resolver ou não vejo saída. E assim não é raro o relato da falta de tempo associado à exaustão, há um desgaste e falta de energia, porque há um esforço para encobrir e não perceber os fatos, muito menos qualquer tipo de sensação.  
No ritmo acelerado que vivemos temos dificuldade para perceber sensações, tanto de prazer quanto de desprazer, as pequenas coisas da vida não são apreciadas e ações mais simples se tornam cada dia menos valorizadas. Isto não significa voltar à idade da pedra, mas prestar atenção que o excesso de trabalho, estudo e uso de tecnologias nos aprisionam no tempo.
Enquanto estamos aprisionados várias coisas acontecem ao nosso redor, na família, na política, na vida como um todo e assim corremos o risco, pela falta de tempo, de não exercer nossa função autônoma. Deste modo o exercício da autonomia pode ser um propulsor para sermos de fato senhores e donos do nosso próprio tempo.



domingo, 19 de junho de 2016

Tempo do bem

O que significa bem? Segundo o dicionário a definição de bem é aquilo que é bom, agradável, que causa alegria e felicidade. Ao assistir um filme me vi navegando em pensamentos e reflexões por este sentimento do bem, da capacidade ou não de humanidade, do perdão e da simplicidade, do sentir diferente. Observo e vivencio diversas situações com meus pacientes, nesta experiência procuro através da minha formação acadêmica e dos anos vividos, auxiliar nas possibilidades das interações pessoais, nas atividades cotidianas, despertar e ou desenvolver uma habilidade que conduzam a inclusão social e a qualidade de vida, produzir saúde.
A inclusão social é algo bonito de se dizer, mas quão longe está da realidade em que vivemos. Praticar a inclusão requer aceitação, quebra de rótulos e preconceitos, e porque não dizer um sentido de humanidade. A sociedade carece de mudanças na estrutura física e na forma de concepção das pessoas diferentes. O senso comum indica a terapia ocupacional às pessoas consideradas diferentes, mas já parou pra pensar o quanto está difícil incluir-se de uma maneira geral, conseguir seu espaço e até mesmo uma aceitação de si mesmo? A condição de ser bom, praticar a benevolência relaciona-se com as características da natureza humana e não diz respeito apenas as pessoas incomuns, porque na verdade somos todos diferentes. Não entendo o bem e o bom como ser bobo e nem com a condição de herói, como utilizada por filmes, mas como algo inerente a natureza e próprios da capacidade de amar. Tenho a impressão que o mundo caminha cada vez mais na direção da falta de altruísmo.
Tempo do bem deveria ser todo dia: ” fazer o bem não importa a quem”. Para ações do bem é necessário um pouco de inocência ou mesmo não ter intenção da maldade, agir de acordo com a simplicidade e concretude do sentimento. Levar ao pé da letra aquilo que ouvimos e sentimos, sem racionalizar pode dar a impressão de besteira, mas é a forma mais pura de expressão. A manifestação simples dos sentimentos, a demonstração sem receio, não se importando com o que o outro pode pensar, não é algo característico na convivência social.
O filme “my name is khan”, fala desta simplicidade na manifestação de ações humanitárias, a discriminação e o preconceito em relação a uma pessoa com a síndrome de asperger. Curioso é que este filme não teve divulgação, talvez por ser um filme indiano e induzir várias questões aos Estados Unidos, como a perseguição aos muçulmanos, o preconceito, ausência ou atraso humanitário em virtude do estrago causado pelo furacão Katrina que atingiu Louisiana.
A Síndrome de Asperger é brilhantemente interpretada pelo personagem    denominado Khan, que demostra a falta de jeito na expressão do afeto e ou a falta da habilidade para sentir como as pessoas “normais”. A aparência desajeitada de se comportar, a interpretação muito literal da linguagem e a interação social ingênua e inapropriada, aparece de forma encantadora e extremamente sincera no personagem. O jeito espontâneo de se comportar surpreende as pessoas tanto para o bem quanto para o mal e produz laços afetivos que conduzem a sua realização na vida e aos ensinamentos primários vindos da mãe, sobre pessoas boas e más.
O filme me emocionou ao demonstrar que nada é impossível quando se tem obstinação, se existe crença, mesmo que aos olhos dos outros possa ser fantasioso e fora da realidade.
A dificuldade na expressão de afeto, característica da síndrome, não se constitui um obstáculo para que o amor e a dor possam ser percebidos de outras formas, diferentes das quais normalmente conhecemos. 
A perspectiva do sentir/fazer diferente conduz ao exercício de despertar novos conhecimentos e emoções, como por exemplo, pensar e despender parte do seu tempo para refletir sobre ações que promovam o bem.  

     






sexta-feira, 15 de abril de 2016

Tempo de crochê


Correntinha, laçada, ponto alto, ponto baixo e vou construindo meu tapete, de repente correntinha e perco o ponto, a sequência, volto, tem que desmanchar. Assim é o crochê, vários pensamentos aparecem nesse processo, a gente se distrai, às vezes erro e tenho que retomar, voltar a atenção no ponto, na sequência. O crochê parece algo simples, mas está cheio de requisitos importantes para a execução como: coordenação motora, concentração, matemática, criatividade e uma habilidade fundamental a paciência. A paciência é algo fundamental para tudo que vamos realizar e se faz presente também nas relações humanas, como por exemplo, ter tolerância com os erros alheios e os seus. Cada pessoa tem um porque para começar uma atividade de crochê, uma história que pode ter se iniciado na adolescência na idade adulta, na terceira idade. Como sempre enfatizo, a atividade dependerá da singularidade de cada pessoa, o que é bom para mim pode não ser para você, no entanto, observo algumas resistências das pessoas para experimentar certas atividades, o crochê é uma delas. Percebo preconceitos, ideias distorcidas, até culturais, relacionando com atividades antigas, feitas por avós. Realmente a história do crochê é antiga, historiadores fundamentam teorias que ele surgiu na Arábia e se difundiu pela Espanha e Europa através das rotas comerciais do mediterrâneo. Antigamente o artesanato aproximava principalmente as mulheres, representando o princípio e a formação de “boas moças, prendadas”.
O ato de fazer crochê permite exercitar e vivenciar a identificação de funções e papéis ocupacionais auxilia na nossa organização interna e externa e contribui para melhores adaptações ao ambiente em que vivemos.
As atividades estruturadas como nós terapeutas ocupacionais denominamos, organizam pensamentos e proporcionam algo parecido com a meditação, porque estamos de fato imersos no processo da atividade no aqui e agora.  Em uma escola de artes ou artesanato as pessoas aprendem a técnica, conhecem outras pessoas, interagem, no processo de atendimento da terapia ocupacional, a sua relação é com o terapeuta, que está preocupado e ou sensibilizado com suas questões particulares. No processo do atendimento da  terapia ocupacional, você também pode aprender a técnica, mas esta não é a proposta única e primordial. A leitura da ação é outra técnica utilizada pelos   terapeutas ocupacionais, realizamos várias ações, somos seres pragmáticos, entretanto, nem  sempre se tem clareza, na verdade muitos dos nossos atos são obscuros, estão ocultos, mas temos a necessidade e o impulso em fazê-los. 
Outra característica curiosa e que faz a diferença na realização de atividades com a presença de um terapeuta, é a oportunidade que as atividades oferecem de em determinado momento deixar a mente distraída. A mente distraída e sem o recurso da racionalização que na maioria das vezes utilizamos, permite o acesso aos nossos mais profundos sentimentos e emoções, é como se abrisse uma janela, uma passagem. Ao vivenciar a emoção e o sentimento no concreto, sem o mecanismo da racionalização é possível que a experiência vivenciada ofereça a condição para uma mudança, de comportamento de atitude diante de algo que parece sem solução. Normalmente temos a tendência de submeter os relacionamentos, as pessoas, coisas e ideias apenas aos princípios da razão e não da experiência propriamente dita. A utilização de altivez, falar com jactância é a conduta que apresentamos, quando não conseguimos vivenciar uma experiência ou porque ela não é permitida socialmente e ou internamente ou ambas, ou mesmo quando algo ou alguém rejeitou. 
A arte de fazer crochê permite que você se mantenha parado por um tempo, mesmo com um turbilhão de pensamentos, o ato de “crochetar” pode ajudar a  organiza-los, tornar menos intenso e até diminuir a aflição, o agitamento.  Portanto nunca é tarde para experimentar ou iniciar uma atividade, cabe a você se permitir conhecer novas possibilidades, quem sabe esse próprio ato te revele outros horizontes.
Melhor errar um ponto do crochê e começar tudo de novo, do que viver praticando erros no curso da existência.
Postem comentários de como é fazer crochê, como iniciou e porque, só esta reflexão com certeza te levará a lugares que você nunca visitou.